Olha o que já passou por aqui!

postado por Cinthya Rachel às 12:25
17
nov

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Impossível as meninas do pilates gostarem de mim. Certeza que me achavam antipática. Eu chegava, falava oi, deitava na minha caminha, e seguia calada até o fim da aula, de onde saía com um aceno discreto de cabeça no lugar do tchau e dos mil beijos que os argentinos gostam de distribuir.

É que é muito difícil ser simpática e engraçada em uma língua que não é a sua, ainda mais no meio de uma aula em que você tem ficar muito atenta, por que imagina se troco la rodilla (joelho) por el codo (cotovelo)?

A professora devia me achar uma aluna exemplar e muito séria, mas na verdade aquela minha cara de concentração era pra tentar adivinhar o que significava o que ela falava. Eram partes do corpo e posições que em espanhol faziam tudo parecer muito complexo.

Eu ouvia o que a professora dizia, tentava identificar a parte do corpo, olhava paras as amiguinhas e copiava. Tobillo (tornozelo), pecho (peitinhooooo), pies, piernas, manos, cuello (pescoço). Até que um dia tinha que cerrar los ojos (fechar os olhos) e levar el mentón hacia (até) el pecho. Jesus, o que é mentón, o que eu que tenho que levar até meu peito, que parte do corpo é essa que nunca ouvi ninguém falar, e agora, que parte é, vou abrir o olho disfarçadamente e… Era o queixo!

Quando a professora fazia alguma piada com as alunas era o pior momento, porque é nessa hora que as pessoas se aproximam e fazem amizade, mas você já viu dois argentinos conversando? Deveriam estar no Guinness pela fala mais rápida do mundo. Eu pescava uma ou outra palavra, mas pra ser sincera eu entendia basicamente 0,32% da conversa, todas riam, menos eu. A antipática do pilates.





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postado por Cinthya Rachel às 19:14
29
out


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A vida vai passando assim sem a gente perceber, aí quando vejo já tem semanas que não escrevo no blog. Viver em um outro país é muito louco, pois você acha que já está adaptado e aí do nada vem um cheiro, um gosto, uma falta de alguma coisa, mas você segue, porque tem cheiros e gostos novos por aqui.

Um dia acordei, vi uma reportagem de uma menina que tinha 500 plantas em um ap no Brooklin e eu: é isso! Caramba, eu gosto de plantas, sempre gostei, quando foi que coloquei isso numa caixinha dentro de mim e guardei? Saí e voltei carregada de verdinho. Vocês sentem que tem partes de vocês que guardam por um tempo e nem sabem por quê?

Será que fiz isso com mais alguma coisa? Certeza. Bem, já já resgato essa coisa e volto a experimentar. Acho que às vezes falta isso na vida: provar. Gosto disso? E isso, é legal? Mas e se eu fizer diferente? E se eu mudar o caminho?

Vamos experimentar…





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postado por Cinthya Rachel às 9:47
27
set

Eu nunca comprei uma goiaba na vida. Nunca. Tinha uma goiabeira na casa da minha vó, e lembro de usufruir da fruta bem doce até os meus 19, algo assim. Eram aquelas goiabas feias porém deliciosos, e tirando os traumas dos 5 bilhões de lesminhas que eu devo ter achado e das bicadas dos passarinhos nas frutas, foi uma relação feliz. Mas nunca gostei particularmente de goiaba, comia mais porque estava ali. Nunca me interessei em comprar na feira, no mercado, no sacolão. Goiabada também nunca foi dos meus doces favoritos. Vai lá, um pedacinho de vez em nunca com queijo era bom, daquela cascão. Ou o biscoitinho com ela dentro, que aprendi a fazer quando era criança.

Daí que vim morar em Buenos Aires e as frutas tropicais não se animam de amadurecer por aqui. Elas até existem, mas não tem gosto, não tem doce, não tem amor. Não vamos falar do preço… O mamão é branco e sem graça, a manga fica macia mas não fica doce e o maracujá custa um rim.

Aí que meu marido me aparece em casa com mais de um quilo de GOIABA. Onde ele achou goiaba em Buenos Aires? Não sei. Melhor não perguntar. Mas fiquei feliz, feliz. Elas estavam muito perfumadas, voltei à infância em 2 segundos. Já macias ao toque nem me assustei quando abri e elas estavam azedinhas, a vida em terra portenha é dura para as frutas da minha infância. Não pensei duas vezes, piquei tudo, bati a polpa, coei as sementes, taquei açúcar, meti na panela de ferro e tá rolando uma goiabada aqui. Aposto que os vizinhos estão assustados tentando entender que cheiro é esse.

Isso é cheiro da casa de mi abuela, vecinos!

E eu nem gosto de goiaba…





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postado por Cinthya Rachel às 15:48
16
set

Me desculpa o incômodo, mas precisamos falar do meu marido. Não, não precisamos, mas eu vou. Nos conhecemos no tinder. Ele disse que não queria nada sério. Eu também. Nos víamos todos os fins de semana. Mas não queríamos nada sério. Cozinhávamos juntos, mas nada sério. Ele me ensinou uns palavrões em espanhol. Ele já sabia os palavrões em português. Mas ensinei pra ele que a comida pode ter mais do que apenas um tempero, aqui é Brasil porra, aqui tem alho, aqui tem cominho, aqui tem coentro. Ele me levou em um restaurante lindo no meu aniversário, me comprou flores, escreveu um bilhete, mas a gente não namorava.

Ele me acordava cantando tango e Zeca Pagodinho. Eu acordava de mau humor (mentira, mas ficou boa essa frase no texto). Eu mostrei as maravilhas da carne seca. Também fiz feijoada. E ele empanada. Nosso “não relacionamento” era baseado em comida. E em vinho.

Ele me mostrou coisas de SP que eu não conhecia. Mas eu que levei ele pra comer o sanduba de pernil do estadão e disse- che, boludo, que buena onda, flaco. Mentira de novo, eu não falava uma palavra em espanhol e devo ter escrito tudo errado.
Ele me ajudou a planejar uma viagem que eu ia fazer sozinha, aí ele acabou entrando no meio e virou uma viagem de dois.

Um dia quando a gente almoçava, sim, comemos e cozinhamos muito, ele deixou escapar um “porque desde que a gente namora…”. E eu como não lembrava de ter sido pedida em namoro resolvi esclarecer os fatos, pois eu não queria nada sério, ele não queria nada sério, então ele me pediu em namoro e seguimos com nosso relacionamento engraçado.




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